Quando chega o verão lembro-me sempre do João, foi nesta altura que ele morreu. Além de me lembrar dele durante o resto do ano, nesta altura é impossível de evitar, porque morreu nesta altura e foi nesta altura que passámos algumas das nossas melhores histórias.
Se podia ter havido um melhor amigo, companheiro, animador, sorriso aberto pronto a fazer alguma das suas, tenho a certeza que não gostava de ter tido outro, se há outros não quero saber, este será para sempre o meu. Lembro-me porque foi tudo de uma forma rápida e de surpresa, sem hipóteses de despedidas ou coisas do género, não que ele fosse do género de gostar disso, tenho a certeza que acharia uma seca, mas sei que se ele soubesse sequer o que iria acontecer, pelo menos teria dito alguma daquelas coisas que só ele sabia puxar do fundo de si.
Não se perde facilmente uma pessoa assim, uma pessoa que vimos fazer as melhores e piores figuras da nossa história, uma pessoa com quem no mesmo dia por duas vezes estivemos perto de morrer, escapando a isso com uma alegre disposição. Perder este tipo de pessoas é o tipo de coisas que nos marca para o resto da vida, porque estas são as pessoas que são feitas para nos acompanhar, são feitas para viver connosco as histórias todas que ainda há, pessoas diferentes mas que encaixam tão bem que chega a ser assustadora a maneira como as coisas são. Da última vez que falámos todos da morte do João, como sempre rimo-nos, porque há sempre alguém que volta a contar uma história que já está meio esquecida, de alguma coisa que ele fez ou disse, eu especialmente tenho algumas que relembro com uma alegria e dor que são maiores que eu, a alegria de saber que vivi algo assim, a dor de perder alguém tão especial.
Não gosto de relembrar grandes momentos, mesmo que sejam pequenos, acho que as pessoas não foram feitas para entender aquilo que só intervenientes conseguem perceber numa história, essas posso partilhar com quem o conhecia e com quem teve a sorte de viver um pouco com ele. Já lá vão 5 anos, são anos demais para se estar sem alguém como o João, eu à semelhança de outras pessoas, recuso-me a apagar o contacto dele do meu telemóvel, mantenho-o nos contactos de messenger e guardo fotografias que tenho com ele, apenas dele ou qualquer coisa que me lembre ainda melhor a sorte que já tive.
Deixou além de amigos e amigas com saudades que nunca saberão colmatar, uma família e uma namorada, pessoas que prezava embora nem sempre fosse o seu género ser aquele que elogiava, gostava e eu consigo compreender o porquê, de gozar com as pessoas da sua forma a brincar, costumava dizer-me quando eu estudava, que a minha faculdade era um antro de mulheres e eu seria o capitão daquele barco do amor, dizia ele que eu tinha aquilo tudo esquematizado e preparado para nunca falhar, lamentava-se no entanto de quando ia às festas, nunca ter conseguido sair de lá senão com um filho de um embaixador russo (que ninguém conhecia), ambos bêbados, ou com professores meus (que ele também não conhecia), a perguntar-lhes por notas de exames e a dar sugestões para as aulas. Era assim, capaz das coisas mais bizarras que eu poderia esperar, a única pessoa que vi perseguir mosquitos com um taco de baseball, com sucesso notável.
É verão, é nesta altura que tenho de celebrar a perda de alguém assim, porque celebro a vida dele e a vida conjunta que me deu a mim e a outros amigos, celebro porque se lamuriasse muito tenho a certeza que ele arranjaria forma de me vir chamar um "conas".
Não acredito em muita coisa fora do físico, tenho dificuldade em aderir à ideia das almas e à vida para além do que aqui temos, não faço ideia se é possível ou não, sei que um dia irei descobrir, gostava que assim fosse para saber que o encontrava à minha espera, para onde quer que eu vá quando terminar a minha altura aqui, provavelmente estará sentado de tronco nú à porta de uma tenda, com o seu taco de baseball, talvez a dormir, talvez com a barba tão grande a queixar-se que parece Jesus, a cantarolar baixinho a música dos travis que ele cantava quando me chamava Capitão Gon, o U16 Girls. Não sei, mas sei que ele esteja onde estiver já está a preparar tudo para o dia em que lá chegarmos, a perguntar porque é que não levámos comida.
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