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quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Quando chega o verão lembro-me sempre do João,  foi nesta altura que ele morreu. Além de me lembrar dele durante o resto do ano, nesta altura é impossível de evitar, porque morreu nesta altura e foi nesta altura que passámos algumas das nossas melhores histórias.
Se podia ter havido um melhor amigo, companheiro, animador, sorriso aberto pronto a fazer alguma das suas, tenho a certeza que não gostava de ter tido outro, se há outros não quero saber, este será para sempre o meu. Lembro-me porque foi tudo de uma forma rápida e de surpresa, sem hipóteses de despedidas ou coisas do género, não que ele fosse do género de gostar disso, tenho a certeza que acharia uma seca, mas sei que se ele soubesse sequer o que iria acontecer, pelo menos teria dito alguma daquelas coisas que só ele sabia puxar do fundo de si.
Não se perde facilmente uma pessoa assim, uma pessoa que vimos fazer as melhores e piores figuras da nossa história, uma pessoa com quem no mesmo dia por duas vezes estivemos perto de morrer, escapando a isso com uma alegre disposição. Perder este tipo de pessoas é o tipo de coisas que nos marca para o resto da vida, porque estas são as pessoas que são feitas para nos acompanhar, são feitas para viver connosco as histórias todas que ainda há, pessoas diferentes mas que encaixam tão bem que chega a ser assustadora a maneira como as coisas são. Da última vez que falámos todos da morte do João, como sempre rimo-nos, porque há sempre alguém que volta a contar uma história que já está meio esquecida, de alguma coisa que ele fez ou disse, eu especialmente tenho algumas que relembro com uma alegria e dor que são maiores que eu, a alegria de saber que vivi algo assim, a dor de perder alguém tão especial.
Não gosto de relembrar grandes momentos, mesmo que sejam pequenos, acho que as pessoas não foram feitas para entender aquilo que só intervenientes conseguem perceber numa história, essas posso partilhar com quem o conhecia e com quem teve a sorte de viver um pouco com ele. Já lá vão 5 anos, são anos demais para se estar sem alguém como o João, eu à semelhança de outras pessoas, recuso-me a apagar o contacto dele do meu telemóvel, mantenho-o nos contactos de messenger e guardo fotografias que tenho com ele, apenas dele ou qualquer coisa que me lembre ainda melhor a sorte que já tive.
Deixou além de amigos e amigas com saudades que nunca saberão colmatar, uma família e uma namorada, pessoas que prezava embora nem sempre fosse o seu género ser aquele que elogiava, gostava e eu consigo compreender o porquê, de gozar com as pessoas da sua forma a brincar, costumava dizer-me quando eu estudava, que a minha faculdade era um antro de mulheres e eu seria o capitão daquele barco do amor, dizia ele que eu tinha aquilo tudo esquematizado e preparado para nunca falhar, lamentava-se no entanto de quando ia às festas, nunca ter conseguido sair de lá senão com um filho de um embaixador russo (que ninguém conhecia), ambos bêbados, ou com professores meus (que ele também não conhecia), a perguntar-lhes por notas de exames e a dar sugestões para as aulas. Era assim, capaz das coisas mais bizarras que eu poderia esperar, a única pessoa que vi perseguir mosquitos com um taco de baseball, com sucesso notável.
É verão, é nesta altura que tenho de celebrar a perda de alguém assim, porque celebro a vida dele e a vida conjunta que me deu a mim e a outros amigos, celebro porque se lamuriasse muito tenho a certeza que ele arranjaria forma de me vir chamar um "conas".
Não acredito em muita coisa fora do físico, tenho dificuldade em aderir à ideia das almas e à vida para além do que aqui temos, não faço ideia se é possível ou não, sei que um dia irei descobrir, gostava que assim fosse para saber que o encontrava à minha espera, para onde quer que eu vá quando terminar a minha altura aqui, provavelmente estará sentado de tronco nú à porta de uma tenda, com o seu taco de baseball, talvez a dormir, talvez com a barba tão grande a queixar-se que parece Jesus, a cantarolar baixinho a música dos travis que ele cantava quando me chamava Capitão Gon, o U16 Girls. Não sei, mas sei que ele esteja onde estiver já está a preparar tudo para o dia em que lá chegarmos, a perguntar porque é que não levámos comida.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Durante o fim-de-semana, durante uma situação que podia mudar o destino de tanta coisa, surge pelo meio da conversa a ideia e a necessidade de pensar sobre a importância que as pessoas acabam por ter na nossa vida, as que passam e as que ficam. Ainda sou demasiado novo para ter medos que não são da minha idade, mas também já demasiado velho para não os saber admitir e lidar com eles, o que assim dito acaba por tornar tudo ainda mais confuso se pensar nisso. A verdade é que pelo meio de alguns conselhos e confissões feitas num tom de voz baixinho, a frase "ela nunca serviu para ti, aliás não serve para gajo nenhum" acaba por me marcar quando estávamos a discutir outros problemas, não deixa de ser algo que nos deixa a pensar que as pessoas que temos, por vezes, por mais que queiramos fazer com que elas sirvam e se adaptem, simplesmente não nos servem; e tudo aquilo que sentimos passar e esvair-se de dentro de nós é apenas tudo o que demos e que por vezes nem tínhamos para dar, mas demos. Assim, somos levados a pensar que fomos apenas os melhores actores de um monólogo, onde falámos e dissertámos sobre o amor, a perda, a traição e a ressaca de perder alguém que julgávamos, nos queria tanto como nós a queríamos. Mas nem sempre queremos a mesma coisa, é bom saber o que queremos, é mau quando não sabemos o que queremos ou não sabemos como querer algo que sempre desejámos, esse provavelmente foi sempre o erro dela. Não sei se servia ou não para mim, para qualquer outro homem também não sei, sei que por comparação a histórias que se contam, coisas que se confessam, há um padrão muito grande de pouca abnegação do amor-próprio, fugaz e montado visualmente para fazer espalhafato, mas que não tem tanta substância quanto parece. A verdade é que contas feitas não há nada que se possa dizer mais, o assunto é algo mais que enterrado e que assim sendo, limita-se a ser algo que acaba por emergir de vez em quando, na ocasional lembrança de certas coisas ou na simples confissão de "às vezes tenho saudades dela, por mais que saiba que aquilo acabaria por não funcionar", o que gera a compreensão óbvia de que nem sempre amamos quem nos faz melhor, nem sempre damos a quem nos sabe dar de volta tudo o que esperávamos, nem sempre temos saudades de quem  sente a nossa falta...e por vezes, quem sente a nossa falta, para nós não nos faz sentido nenhum e ignoramos.
O amor tem demasiados caminhos, estes que se falam são como os outros, não tenho dúvidas, complicados e que implicam sempre o investimento mútuo, não são melhores nem piores que os outros, qualquer um deles pressupõe que façamos o melhor e o pior, que saibamos entender os pontos que há no espectro total de uma relação, vamos discutir como vamos estar bem, vamos amaldiçoar o dia que nos apaixonámos porque nos trouxe a toda esta confusão e vamos dar graças pelo dia que nos sentimos arrebatados, porque a paixão é avassaladora. Vamos deixar-nos levar e vamos levar alguém connosco, nunca sabemos se para sempre ou só até amanhã, sem nunca ter um filtro certo para perceber qual é a pessoa ideal.
Quando me dizem "tens de ter mais cuidado com as pessoas" eu admito que sim, as pessoas são sempre uma surpresa, revelam sempre partes inesperadas, mas não me parece possível entender quem realmente serve, mas admito que há sinais e sinais que não devem ser ignorados, não que agora seja hora de os renegar e chorar por cima deles, está feito e o que havia a fazer devia ter sido feito na altura, bem como tudo o resto que fizemos está feito e nada o pode apagar.
Levamos segredos connosco, levamos histórias que provavelmente nunca partilhámos quando tudo acabou, levamos demasiada coisa connosco, é por isso que o amor nos pesa, é por isso que tanto o vencedor como o derrotado de uma relação que termina são ambos uns desgraçados que no final acabam por sofrer, cada um para o seu canto.
A história poderia nunca ter fim, mas neste caso tem um fim, a conclusão que provavelmente não tinha futuro, seja lá por culpa de quem for, embora eu tenha um suspeito eleito, aliás que muita gente concordará. Mas isso não faz nada senão agravar o sentimento de raiva ou de injustiça, as pessoas mudam e só podemos desejar que nunca tivessem mudado, mas afinal de contas isso se calhar só prova que cresceram e no início eram mais imaturas, se calhar mais do que pensavam que eram, levando-nos à conclusão que há pessoas que acabam por evoluir ao contrário nas relações, quanto mais se pode desejar e querer proximidade, mais se afastam, mais se fecham e mais pensam que se calhar ser criança é uma das melhores coisas que a vida nos pode oferecer, crescer é difícil, ter medo é difícil e enfrentar as coisas como elas são é uma tarefa que não tem estatuto, não tem grau académico nem tem beleza, as pessoas quando não sabem ser o que deviam ser acabam apenas por ser fracas fugitivas do destino que lhes está reservado, consolam-se na ideia de que vão ficar sempre sozinhas porque acabam sempre por estragar tudo, estarão sempre em forma porque irão passar a vida a fugir do que querem realmente fazer.